Era entardecer de domingo. Estávamos eu, meu primo e mais 2 amigos jogando RPG no sítio do meu tio Cróvis.

Éramos vikings saqueando uma cidade litorânea. Muita emoção! Tomamos até uma garrafa de 51 pra dar mais realismo, pois a maioria dos vikings estavam ébrios quando saqueavam .

Meu tio entrou na sala bem na hora em que eu ia invadir a casa de um velho agricultor. Ele nos disse que estava apavorado com a juventude do séc XXI.

– Na minha época a gente subia em árvore, nadava no rio, brigava de facão. Mas vocês ficam o dia inteiro dentro de casa jogando essas coisas aí. A gente tem até pedalinho ali no rio e vocês não aproveitam… – falou ele.

Eu ia mandar meu tio tomar no cu, não por falta de educação, mas por embriaguês e porque estive representando a arrogância viking por horas.

Mas então uma idéia brilhante me veio à mente.

– Tio, você tem razão! Vamos brincar lá fora, aproveitar o sítio.

Meu primo começou a entender, meus amigos não.  E meu tio ficou feliz da vida achando que os sermões dele ainda valiam alguma coisa.
Chamei os três pra fora e contei o que estava pensando:
Ao invés de ficarmos apenas imaginando aquelas coisas, poderíamos brincar e simular uma ação viking de verdade no sítio do meu tio!

Os olhos deles brilharam e eles toparam na hora!
Corremos meio tropeçando de bêbados para o galpão do sítio e lá a gente encontrou um machado, enxadas, uns pedaços de pau, um galão de gasolina e dois facões.
– Por Odin! – meu primo gritou – Isso vai ser muito foda! Vamos batalhar entre nós. Aqui mesmo!

– Tenho uma idéia melhor – eu estava cheio delas aquele dia – Vamos saquear uma cidade litorânea! – falei apontando pro pedalinho, que estava amarrado na beira do rio.

barco viking

– Puta que pariu! Nosso barco viking! Foda! Foda! – todos gritaram.

Foda mesmo. Seria o dia mais emocionante de nossas vidas!

Pegamos nossas armas e a gasolina e corremos pro nosso navio!

Era um daqueles pedalinhos em forma de cisne.

Eu subi primeiro e cortei a corda com o facão.

– Vamos seus cães sarnentos! Subam a bordo, vamos logo com isso seus bostas!

Os três empurraram nosso barco em direção ao rio e pularam dentro.

Do outro lado do rio era outro sítio. E era uma ótima cidade costeira para saquear.

– Lá! – apontei – Parece ter muitas coisas para pilhar, muito sangue para derramar e muitas mulheres para deflorar! Remem seus malditos!

Todos urraram de alegria. E meus amigos começaram a pedalar em direção às margens do outro sítio.

Aquela cabeça de cisne tava muito boiola e não parecia a cabeça de um monstro de barco viking. Então meu primo resolveu despejar um pouco de gasolina em cima da cabeça do bicho e atear fogo.

Pedalinho Viking

Ilustração Pedalinho Viking

– Agora sim! 

Estava escurecendo e aquele barco viking com cabeça de ave flamejante deve ter impressionado nossas vítimas.

O velhinho, caseiro do outro sítio, nos observava da beira do rio, e quando levantamos nosso machado, facões e enxadas e soltamos gritos de guerra, juro que vi uma pontada de medo nos olhos dele.

Chegamos à beira e antes mesmo de atracarmos, meu primo enlouquecido pulou do barco e correu urrando em direção ao velhinho. Este estava confuso mas quis parecer amistoso.
– Oi! Do que vocês tão brincando?
– De tirar sua vida e suas posses! – gritamos do barco enquanto meu primo o alcançava.
O velhinho arregalou os olhos, se virou e tentou correr, mas levou uma facãozada nas costas.

Gritamos em comemoração. Meu primo mijava sobre o moribundo enquanto corremos para o casarão antigo.
Quebramos as janelas e arrebentamos a porta de madeira a machadadas. 
Entramos e pegamos televisão, videocassete, batedeira e tudo o que podíamos carregar. Levamos tudo para o nosso barco viking e voltamos para a casa em busca da recompensa maior: mulheres.

Procuramos pela casa inteira até encontrarmos uma velha gorda atrás da geladeira.
Ela cheirava a alho. E nós fediamos a cachaça!

– A senhora tem filha? – perguntei meio rosnando.

– Seus moleques fiadaputa! Eu chamei a polícia! – ela gritou e cuspiu em mim.

Fui dar um soco nela mas na mesma hora ela apontou um revólver na nossa direção.

– Isso não vale! Estamos no século 10. Não existia pólvora ainda!

– Lógico que existia! – disse a velha engatilhando a arma.

Ficamos indignados com a afirmação daquela cadela maldita.

– Só se for no seu cu. NÃO EXISTIA NÃO! – berrei enraivecido.

Ela olhou bem pra minha cara e disse:

– A pólvora foi descoberta no século 9 na China, seu moleque burro, e começou a ser usada em guerras no século 10. Seu BURRO! BURRO!

– Acho que ela tá certa… – disse meu primo meio sem graça.

Se fosse no RPG, aquele meu erro seria imperdoável. Eu seria zoado e humilhado por todos através dos séculos!

O ódio tomou conta de mim.
A fúria viking acordou e com habilidade e rapidez incrível, baixei o facão naquela velha metida a besta!
Cortei seu pescoço e ela não teve tempo de disparar uma única vez.

– Cara, isso foi muito foda! – disse meu primo – O sangue jorrou no teto! hehe

 Enquanto isso meu amigo começava a tacar fogo na casa.

– Vamo sair daqui seus porra!

Peguei o galão da mão dele e despejei gasoza em cima da velha.

– Vamo! Vamo!

Saímos correndo de lá e paramos um pouco pra ver a casa em chamas. Nossa primeira pilhagem. Estávamos em êxtase.

– Vamos vender essas merda e comprar um novo dado de RPG!

Pulamos no pedalinho viking, meus amigos pedalavam enquanto eu e meu primo remávamos com as enxadas.
Cantamos comemorando o saque e atravessamos o rio, escondemos o pedalinho queimado pro meu tio não ver e ficamos de butuca pra ver a polícia chegando.

Entramos em casa e o jantar estava na mesa. Minha tia cozinha muito bem.
Passei a mão na bunda dela e berrei:
– Mulher! Este frango não dá pra preencher nem o buraco do meu dente podre!
Ela deu um sorriso meio sem graça e saiu da cozinha. 

Nosso domingo no sítio do tio Cróvis foi uma aventura épica.
E meu primo e meus amigos juraram por Odin e por Thor que nunca contariam a ninguém do meu erro sobre a pólvora.

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