Terça-feira, 17 de abril de 2007. Fim de tarde. Busão lotado. Fedor infernal de gente voltando do trabalho.

 Não tinha assento livre, fiquei de pé, perto da entrada. 

No fundo do busão, um senhor evangélico de uns 40 anos, de terno e gravata e segurando uma mala gritava para uma velha.

 – É disso que eu tô falando, minha senhora! Os jovens de hoje estão perdidos! Eles não aceitam mais Jesus, minha senhora. Foram seduzidos pelo Diabo!

 Nisso, o ônibus fez uma parada, um assento ficou livre, mas eu não sentei, fiquei esperando ele esfriar um pouco porque pode pegar doença.

 A velha nem teve tempo de responder e o crente continuou a berrar, apontando para um maluco que estava sentado ali perto:

 – Olha aquilo ali. Aquele rapaz ali. O que é aquilo? Camiseta de rock, o som do Diabo! Cabelo desarrumado e piercing na orelha! Jogando jogos demoníacos naquele aparelho de Satanás! Isso aí precisa de Jesus na vida! Está perdido!

Ao que o maluco citado levanta e encara o evangélico:

– Escuta aqui seu crente filho da puta! Vai tomar no meio do seu cu! Fica julgando as pessoas, como se fosse um grande exemplo, enquanto a senhora sua esposa tá dando a buceta pra geral!

O povo do ônibus ficou num silêncio só. Até o ar ficou pesado. Maior tensão. Mas o evangélico, mesmo nervoso, não perdeu a compostura.

 – Respeito,  jovem! Minha esposa é mulher de respeito! E digo mais, eu sou pastor da…

– Cadela puta boqueteira! E como você explica que ela é crente e tem uma tatuagem de coração na bunda?

 O cara realmente estava pegando pesado. Assim como nós o crente ficou perplexo.

– Bom, realmente a senhora minha esposa tem tatuagem porque ela se converteu recentemente. Mas isso não vem ao caso…

 E ao dizer isso, o crente tirou da mala um revólver 38 e deu três tiros na cabeça do maluco.

O motorista deu uma freada brusca.

– MAS QUE CARALHO! EU JÁ FALEI PRA ESSES MOLEQUES FILHO DA PUTA NÃO ESTOURAR BOMBINHA NESSA BUCETA! CADÊ O FILHO DA PUTA? CADÊ? SÓ ME MOSTRA!

Eu não queria me intrometer.
Uma velha desanimada ali perto respondeu:

– Foi lá no fundo.

 Foi então que uma maluca de olho vidrado que tava do meu lado fechou o celular e gritou se descabelando:

 – É UM ASSALTO! MINHA MÃE TÁ VENDO NO DATENA! O DATENA FALOU QUE É UM ASSALTO, UM FERIDO, PUTA QUE PARIU EU NÃO QUERO MORRER!

O programa do Datena devia estar com falta de notícias e ele deve ter mandado o Comandante Hamilton sobrevoar Sampa.

Caos total. Todo mundo caiu na gritaria e eu resolvi finalmente sentar naquele banco vago e continuar bem quietinho. Ao longe já se ouvia barulhos de sirene da polícia. 

 – Calma, meu senhor, a gente vai fazer tudo o que o senhor quiser, meu senhor! O que tão esperando? Entrega essas bosta de celular e carteira pro cara! – berrou o motorista

 – Não, NÃO! Eu, eu não… – balbuciava o pastor, ainda segurando o revólver.

 Todo mundo começou a jogar carteira, jóias e celulares pro pastor, que percebendo a situação e ouvindo o barulho das sirenes, resolveu abrir sua mala e pegar os objetos. Também pegou o celular do rapaz morto.

 – Ninguém se mexe, seus bostas! Vou estourar a cabeça de todo mundo, tão entendendo? – gritou e foi em direção a porta de trás do ônibus – Abre essa merda! Abre essa merda! – gritou, apontando a arma pro motorista.

 O motorista apertou o botão e abriu a porta.

 – Paz de Deus! – disse o pastor e saiu correndo desembestado pela rua e desapareceu num beco.

Particularmente eu acho o Dízimo uma forma mais pacífica.

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