
Madrugada fria de chuva calma. Eu ainda estava acordado, há meses sofrendo de insônia, só conseguia dormir após horas jogando God of War no PS2. E era o que eu estava fazendo àquela hora.
Eu tinha 42 anos, já viúvo, e havia comprado o videogame apenas para me distrair, livrar meus pensamentos daquela tarde fatídica quando entrei em casa e peguei meu único filho dando o cu prum negão.
Expulsei meu filho de casa e passei a morar só. Apenas eu, meu PS2 e muitas latas de cerveja bem gelada.
Nesta madrugada, me lembro, eu já tinha tomado mais de uma dúzia de Skol e jazia babando sobre o controle analógico, ainda acordado, quando uma batida seca na porta de casa me assustou.
Levantei num sobressalto. Ou era a polícia ou era meu filho viado querendo voltar pra casa, pensei, enquanto limpava a baba do canto da boca.
Abri a porta, um vento frio me atingiu. Eu estava só de cueca.
Não era nada, não tinha ninguém. Fiquei puto da vida, já ia fechando a porta quando uma sombra funesta passou por sobre a minha cabeça.
A sombra era um marreco, que ao entrar em minha casa, sobrevoou batendo a cabeça no teto várias vezes, tantas que começaram a se formar minúsculas manchas de sangue aonde ele colidia.
Então, como se cansado de sua burrice, o estranho marreco empoleirou-se em cima da Tv. Ficou lá totalmente imóvel, com a cabeça sangrando, sério.
Eu ri, o que mais poderia fazer diante daquilo? E ao me aproximar do marreco, eu perguntei só para brincar:
- Olá marreco inconveniente. Que faz aqui?
E o marreco disse:
- Eu quero ganhar mais!
Fiquei admirado com a ave, apesar da sua frase sem sentido. Mas o que esperar de um marreco falante que veio das trevas?
E o marreco disse:
- Eu quero ganhar mais!
- Vai tomar no seu cu, seu bosta! – gritei levantando os braços, mas a ave nem se mexeu. Ela não tinha medo. Me olhava, impassível, e me causava medo.
Talvez fosse o marreco de estimação de um dono viciado no extinto programa do Celso Portioli – Sessão Premiada – e tenha aprendido essa frase ridícula com ele. Ou. não.
Que madrugada mais inacreditável!
- Você só sabe dizer isso? – perguntei e a ave não respondeu, mas começou a se mover.
O marreco se ajeitou e começou a cagar sobre a minha tv. Despejou uma merda clara, esverdeada e fétida, que escorreu sobre a tela LCD, me causando náuseas e fúria.
- Marreco filho duma puta! – berrei alto e ele nem se moveu
E o marreco disse:
- Eu quero ganhar mais!
Peguei meu 38 debaixo da almofada e meti 3 tiros naquela ave infernal, que caiu dura, já sem vida, atrás da tv. E ficou por lá porque eu é que não ia limpar.
Silêncio, a chuva havia parado. Apenas o eco perdurou até o alvorecer – “Eu quero ganhar mais”.
Fiquei sem saber o que mais o marreco queria ganhar.
Seria o prêmio de 5.000 reais?
Escrito por Pessoa Aleatória 


